domingo, 12 de dezembro de 2021

UM SONHO


À Paola Miotto, com amor e medo.

Os cachorro não comio fazia uns três dias já. Então, se algum deles conseguisse alcançá qualquer um dos vagabundo, não sobrava nem osso.

Digo isso porque eu já vi isso acontecê uma vez. Um dia uns maconheiro entraro aqui no meu bar. Era dois cara e uma guria.

Eles querio água, eles.

Eu disse que água só tinha da torneira. Aí eu dei o preço.

A mulher ficou braba comigo. Os cara também. Então eu falei que aquele era o meu bar e que eu cobrava o preço que eu quisesse pela minha mercadoria. Então, se o preço da água era um boquete, era esse o preço que eu ia cobrá.

Aí a mulher me mandou tomá no cu.

Todo mundo aqui na comunidade me conhece. Eu nasci e fui criado aqui. Graças a deus fui bem educado. Meu pai me ensinou a ser um homem direito. Não devo nada a ninguém. Nunca chamei a vigilância pra ninguém que não merecesse. Então eu acho que eu tava no meu direito.

Não disse nada demais na hora. Só falei que aquela água era boa e valia o preço. Não era de esgoto, não tinha sujeira nenhuma e que nem aqui e muito menos na cidade eles iam encontrar água melhó. Falei só a verdade, eu.

Aí, eles viraro as costa e me deixaro falando sozinho.

Era verão na época e o dia tava quente mesmo.

Eles parecio tá na estrada fazia já muito tempo já. Tava todo mundo muito magro. Todo mundo sujo. Uma imundície.

Aí eu gritei: Vocês tão fudido. Eu vou chamar a vigilância pra vocês, seus comunista!

Um dos cara, um neguinho, levantou o dedo do meio e me chamou de fascista.

Aí eu não agüentei.

Não gosto de esculhambação, tu sabes.

Peguei o telefone e mandei mensagem pro comando central. Disse que tinha três terrorista aqui no bairro e que eles parecio tudo drogado.

Sim, porque eles tavo tudo drogado.

Eu vi o olho deles.

Sabe quando a pessoa fuma maconha e fica com o olho vermelho>

Eles tavo tudo assim.

Tudo de olho vermelho.

Aí não demorou nem cinco minutos e já chegou dois segurança numa picape.

Uma caminhonetona grandona. Cinza. Bonita a caminhonete deles.

Um dos segurança eu conhecia da igreja. O outro acho que era PM aposentado. Tinha jeito de PM. Era um fortão, careca, com uma .40 na cintura.

Arma boa a .40. Faz um buracão assim, ó.

Mas aí, então, os dois viero já com quatro pitbull branco amarrado pela coleira.

Cada um vinha segurando dois.

Os cachorro tavo preso numas corrente grossa e de focinheira.

Tu sabes que esses bicho apanho desde filhote, né> Então a única coisa que eles sabe fazê é recebê ordem, corrê atrás de vagabundo e mordê pra matá. Não tem cachorro melhor pra fazê segurança do que o pitbull.

Pitbull é o melhó cachorro que tem.

Então eu contei pros dois vigia tudo certinho o que tinha acontecido.

Expliquei que eu tava aqui no meu serviço e que três vagabundo aparecero querendo água.Eu ofereci o produto e eles me agrediro. Dei a descrição dos três. Falei que a mulher provavelmente era puta e que todo mundo tinha cara de esquerdista.

Maconheiro e esquerdista.

Aí pronto. Os dois já viraro as costa e sairo na perseguição.

Não sei quanto tempo demorô. Acho que nem dez minuto. É... Uns dez, quinze minuto...

Não!

Uns vinte.

Vinte minuto.

Eu tava aqui preparando o sopão do dia pra vendê no almoço e um dos segurança voltou.

Tava com a camisa toda respingada de sangue.

Disse que eles tinham encontrado os três numa trilha aqui perto e que eles tinham soltado os cachorro pra corrê atrás deles.

Fiquei contente porque era isso que eles merecio mesmo.

Mas aí o cara disse que era pra eu ir lá ver se era eles mesmo e reconhecê os marginal.

Então eu fui lá.

Do neguinho não tinha sobrado quase nada do rosto. Um dos cachorro ainda tava roendo parte da bochecha, inclusive. Mas eu reconheci o safado pela cor e pela bermuda.

O outro ainda deu pra ver bem quem era. Os bicho tinho comido só a parte de baixo do corpo. As perna mesmo já tavo as duas só no osso. Uma sangueira desgraçada.

Agora, a mulher foi feio.

Tinha dois bichão em cima dela quando eu me aproximei. Um tava com o focinho enterrado na garganta e com as pata bem em cima dos peitinho. Parecia que tava tentando arrancar a cabeça da vagabunda.

Um cachorro já tinha arrancado uma das perna da moça.

Ao redor a criançada ficavo tudo pulando, gritando, fazendo festa. Tinha tempo já que eles não vio a cachorrada comê.

Aí, o carecão com cara de PM me perguntou se era eles mesmo.

Eu disse que sim e daí eles me liberaram.

Só depois é eu fiquei sabendo direitinho como é que os três tinho sido pegado.

Diz que quando os vagabundo sairo aqui do bar eles já correro direto pro mato porque sabio que eu ia denunciá eles mesmo. Então foram pela trilha, não pela estrada.

Quando os cachorro encontraro os terrorista, provavelmente guiado pelo faro e pelo cheiro de maconha, os pitbull já tavo sem a focinheira e pronto pra atacá.

Nem deu tempo pra ninguém subir nas árvore ou tentá enganá os bichos com pedaço de pão ou farelo de bolacha que nem essa cambada costuma fazê.

Os pitbull da vigilância são uns bicho bom. Já chego estraçalhando.

Diz que eles fico vários dia sem comer pra poder render melhor.

Esses tavo há três dias, parece.

Quem me disse isso depois foi o outro segurança. O rapazinho que eu conheço lá da igreja. Um menino bom, ele.

Ele me disse que a mulher foi a última a morrê.

Morreu xingando o Presidente, ele me disse.

Bem feito.

Teve o que mereceu, aquela puta.

Deus que me perdoe, mas teve sim.


Luiz Souza

Florianópolis, 12 dez. 2021. II d. P. 


sexta-feira, 16 de abril de 2021

MANECO VIEIRA

 


A Rodovia Aparício Cordeiro é uma estrada que leva do Campeche ao bairro da Tapera.

- Com licença, divindades, seres da natureza, posso entrar?

A Tapera é um bairro da periferia de Florianópolis.

-… Muito obrigado, Pachamama.

Uma das características da paisagem urbana da Ilha é o amálgama entre natureza e cidade, campo e asfalto.

- Deixai-me adentrar o vosso território, com todo o respeito...?

A Rodovia Aparício Cordeiro é margeada por pequenos campos de criação de cavalos...

- Ah, não!

e bois.

- Hum!?

- Otro doido!

- O quê...!?

- Que foi rapaigi?

- Caralho! Que merda é essa!?

- Olhó! Ficasse branco que é uma cera!

- Tu falas?

- Não, não falo!

- Tu és um boi falante!? É pegadinha? Que palhaçada é essa?

- Não adianta procurar ninguém não, ô seu tanso. Sou eu mesmo que tô aqui, falando contigo.

- Tu és um boi mesmo?

- Sou um boitatá, não tás vendo?

- Um boitatá?

- É. Num conheces boitatá? Num és daqui, tu?

- Não. Sou de Porto.

- Ah! Outro gaúcho!

- O que é um boitatá?

- Num tem boitatá lá no Rio Grande do Sul, não? Os gaúcho num conhece boitatá?

- Eu... Eu... É.... eu não sei.

- Já visse um rastro de fogo no meio do mato à noite, por acaso? Que nem uma cobra de luz?

- Eu... na realidade... já.

- Então. Era um boitatá!

- Eu pensei que fosse fogo-fátuo. Quer dizer, na hora eu pensei que pudesse ser alguma coisa de outro planeta, tals... Mas, enfim... É que eu nunca pensei que pudesse ser um tipo de boi.

- Um tipo de boi não. Um boitatá.

- É. Isso. Um boitatá.

- Pois agora...

- Mas tu pareces um boi comum, na verdade. Um boi muito velho, mas comum. Tem certeza que isso não é uma pegadinha?

- Ah! vai te caga, guri! Pegadinha! Ahn, ahn... parece que não reza.

- ...

- Eu tô assim magro e acabado porque tô esquecido. Mas na hora que se lembrarem de mim, eu fico forte de novo. Gordo, bonito...

- Ninguém vem cuidar de ti?

- Pior! Ninguém lembra de mim!

- Hi, guys!

Psilocybe cubensis é um cogumelo enteógeno.

- Caralho, mano! Que é esso!?

É um fungo que dá barato.

- É um elemental, ô estepô! Nunca visse um elemental também?

Podemos destacar cinco habitats diferentes para os cogumelos Psilocybe cubensis:

- Um o quê!?

Jardins.

- Cuidado aí, ô seu songamonga! Vais pisar no bichinho.

Florestas.

- Ah, desculpa! Foi mal.

Banhados.

- Agora tu vais me dizer que nunca visses um elemental na vida? Não conheces saci, tu?

Depósitos de esterco.

- Nice to meet you, I'm Grimble Gromble. I came from England.

Pastagens.

- Ele é um gnomo?

Pastagens com bastante esterco fornecem um ambiente perfeito para os cogumelos coprófilos.

- Não tás vendo, ô esperto?

Psilocybe cubensis é um cogumelo enteógeno e coprófilo.

- Do you speak English? Hablas español?

Psilocybe cubensis são fungos que dão barato e que comem merda.

- Tem gnomo aqui?

Merda de vaca.

- Ô! é o que mais tem!

Merda de boi.

- ¿Estás bien, amigo? Tudo certinho com você? Are you okay?

- O que que ele tá fazendo aqui?

- Ah, o que tu acha? Tá morando aqui né, ô seu banzo!

- Aqui onde?

- Onde!? No pastinho! No meu pastinho!

- Tem um gnomo morando aqui no pasto?

- Um não! Tem uma penca! É força de gnomo que tem aqui no meu pasto agora!

- Báh, que locura!

- Poca da vergonha, isso sim! Uns mandrião, uns encostado...

- What is "mandrião"?

- Esse aí mesmo é o dia todo só com esse cachimbo na boca. É um fedor que ninguém aguenta.

- Tá, mas o que esses gnomos vieram fazer aqui?

- O quê!? O mesmo que tu! Pertubar!

- Do you smoke?

- Tá, mas eu não entendi ainda.

- És bem tolo tu. Vô te explica, então...

- Hum.

- É os de fora que traze. Antes isso aqui era uma paz, uma paz. Ai começou os turista. Primeiro era só na praia. Depois se espalhou. Gente de tudo que é lugar. Gaúcho, paulista, paranaense... Aí, acabo que de uns tempo, veio os estrangeiro. Primeiro, os argentino, os uruguaio, depois os outro. Esse aí veio com um gringo que mora ali no Campeche.

- Well, I'll be going now. Bye guys. Buenos dias a los dos. Tchau!

- Ó, lá vai ele fuçar na bosta de novo.

- É... e tu? Vives aqui há muito tempo?

- Eu!? Rapaigi, a minha família era dona desses campo tudo aqui. Antigamente, quando eu era rapazote, corria por esses mato que meu deus do céu. Coisa linda! Eu e os meus irmão. Direto, direto. Era eu, o Deco, o Zé da Maria, o Lino...

- Tinha mais!? Os outros também eram boitatás?

- Tudo boitatá legítimo! Tudo daqui. Nascido e criado na Tapera.

- E onde eles estão agora?

- Ah! Agora tá quase tudo sumido. O Deco eu não vejo desde a construção da Ponte. O Zé da Maria eu perdi de vista. O Lino, coitado, desapareceu depois que o avô do rapazinho que cuidava aqui do pasto morreu.

- Bois tem nome?

- Os boitatá tem.

- Tens nome também?

- Não, não tenho!

- Não tens?

- Claro, ô boca-mole!

- Qual?

- Maneco Viera, ao seu dispôr. Filho da Dona Dica e do Seu Zinho do Engenho.

- …

- Que quê foi? Perdesse a língua? Ficasse abobado?

Segundo a Wikipédia...

- É que... eu não sei... será que eu tô bem? É que eu...

as experiências com cubensis costumam ser extremamente construtivas para o usuário que as experimenta, porém...

- Ô seu coisa ruim,tavas mexendo na bosta também num tavas?

...porém,...

- É... Eu...

...porém,...

- Na verdade eu...

...porém,...

... eu tava sim.

...porém...

- Ah, pronto!

não são raros os casos de ''bad-trips''.

- É... Eu acho que preciso dar um tempo.

E em altas dosagens, o usuário tende a perder o contato com o mundo exterior.

- Claro que precisas!

Ele acaba chapando demais.

- Tá. Falou.Vou lá comer um chocolate...

- Vai, vai! Vai-te embora!


Luiz Souza

CAMPECHE, 19 abr. 2021.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

O MENINO LOIRO

 

Wladyslaw Moes (1900-1986). 




 Toda quarta-feira a noite, depois do expediente, Dr. Rafael Antunes Barbosa, 32 anos, sai para transar com outros caras.

Rafael é casado com a mesma mulher desde o final da faculdade. Mas isso já não o incomoda mais.

Hoje é quarta-feira.

É quase seis horas.

- Cris, por favor, me diz que acabou.

- Acabou, Rafa. Hoje não tem mais ninguém agendado.

-Ai, graças a Deus!

O Dr. Rafael Barbosa é psiquiatra psicanalista e tem um consultório pelas imediações da Avenida Beira-Mar Norte, no centro de Florianópolis. Ele costuma atender até as cinco e meia. Depois desse horário, como faz quatro dias por semana, o homem desce o edifício comercial aonde trabalha, pega o seu carro, busca as duas filhas pequenas na escola e se dirige diretamente para sua casa, na Agronômica.

Rafael faz isso mecânica e religiosamente.

Quatro dias por semana.

Mas hoje é quarta.

Oficialmente, quarta-feira é dia de vôlei com os amigos.

Nada de escolinha. Nada de pizza. Nada de série antes de dormir. Nada disso.

Hoje é quarta-feira.

Dia de pegação.

Pegação forte.

- Desculpa, senhor. Os banheiros do shopping agora tão todos interditados. Desculpa, tá? Faz favor...

Ás quartas, Rafael costuma frequentar os banheiros do Beira-Mar Shopping.

O lugar lhe parece excelente: público jovem, saudável, de nível e boa aparência. As vezes Rafael precisa pagar, mas quase sempre o que acontece nas cabines dos mictórios é só diversão mesmo.

- Não posso usar o banheiro?

- Não, nenhum.

Hoje, infelizmente, as coisas não estão indo conforme o planejado.

Parece que houve algum problema nos encanamentos do edifício. A auxiliar de serviços gerais não sabe informar o que há.

Não importa. O que importa é que Rafa não poderá usar nenhum dos banheiros do Shopping.

O médico fica puto com a faxineira e sai.

- Vaca. Vou ter que ir lá pro parque.

O Parque da Luz é uma área verde de lazer situada bem na zona central da cidade, nos altos da rua Felipe Schmidt, na cabeceira insular da Ponte Hercílio Luz. O espaço, durante o dia, é frequentado por crianças, velhos, ciclistas e desempregados. Já a noite é visitado por pessoas em busca de sexo fácil e drogas baratas.

Até aí, Rafa está bem informado.

O que ele desconhece é o passado do lugar.

A área onde hoje fica o Parque da Luz foi, até a construção da Ponte, o cemitério público de Florianópolis. Praticamente todos os que morriam no núcleo urbano central da cidade eram enterrados lá. Isso aconteceu de 1841 até a década de 1920. Quase setenta anos.

Setenta anos.

Centenas de covas.

Milhares de corpos.

- Olá.

Rafael não acredita na sorte que está tendo. O menino deve ter uns 17 ou 18 anos. No máximo.

- Oi. Curte o quê?

Rafa perguntou por etiqueta. Ele toparia qualquer coisa.

- O que você preferir.

O menino tem cara de anjo. Loiro, olhos azuis, cabelos longos e ondulados.

- Chupa.

A boca do rapaz é quente e macia como uma boceta. Ele parece ansioso. Sorve rápido o pau de Rafael. Muito rápido, como se não visse a hora de acabar.

- Isso... isso... putinho... chupa viado.

- Umpf... Umpf...

- Humm...

- Umpf... Umpf... Flap-flap, flap-flap, flap-flap... Umpf... Umpf...

O médico ejaculou abundantemente.

O garoto não tem problema em engolir esperma.

Rafael está satisfeito.

Já é noite.

É preciso voltar para casa.

Dr. Rafael fecha a braguilha e procura a carteira no bolso traseiro da sua calça jeans.


***


- Eu não quero dinheiro.

- Ai, desculpa... Pensei que você tava trabalhando.

- Eu não quero o teu dinheiro.

O menino tem olhos tristes.

- Tá bom.

- Não preciso de dinheiro.

- Tá, entendi.

- Mas eu quero outra coisa.

- Humm?

- Eu preciso que tu me ajudes.

- Ajuda? Claro, claro, podendo eu ajudo. Não é dinheiro mesmo que tu tás precisando? Olha, eu acho que eu tenho cinco reais ali no porta-luvas e...

- Eu já disse que não preciso de dinheiro.

- Certo. O que é, então?

- Eu preciso é que tu digas aos outros, os de fora do parque, que eu estou aqui. Que eu ainda estou aqui.

- Oi? Desculpa, eu não sei se entendi.

- Eu preciso que tu digas aos vivos que ainda existe um túmulo aqui.

- ...?

- E que esse túmulo é meu.

- ...? Túmulo? Seu túmulo?

- Eu quero que digas a eles que eu ainda estou aqui embaixo desta terra. Quero que digas a eles que eu não posso continuar aqui.

Rafael dá como certa a esquizofrenia do rapaz.

Ele não parece usuário de crack. Tem aspecto bom demais para isso. O garoto está doente. Um surto. Sim, um surto, não há dúvida. O garoto tem algum transtorno e está em surto. Talvez esquizofrenia.

Já é noite alta.

Rafael está sozinho.

No meio do nada.

Sem ninguém para pedir ajuda.

Surtos esquizofrênicos podem ser muito violentos.

- Claro. Claro que eu te ajudo. Ajudo sim. Olha só, senta um pouquinho aqui que eu vou ali no carro pegar o meu...

- VIADINHO!!!

- Ah!

- Seu viadinho de merda!

- …!?

- Viadinho!

- Calma...

- Invertido!

- Calma, por favor...

- Desgraçado! Uranista! Sifilitico nojento! Pederasta!

- Tudo bem, rapaz. Tá tudo bem, eu sou amigo. Não disse que ajudava? Tudo bem.

- Sodomita!... Maricas!... Efeminado...

- … calma...

- …

- …

O garoto está chorando. Rafael começa a sentir pena dele. Pena de verdade. O menino tem um rosto de porcelana. Branco e delicado.

- Desculpe, senhor.

- Tudo certo. Vai dar tudo certo. Calma. Respira...

- Desculpe.

- Esquece.

- Eu era herdeiro de uma das famílias mais importantes da Província.

- Como?

- Eu nasci num solar próximo à Igreja. Meu pai não era brasileiro. Era suíço. Minha mãe, italiana. Imigraram os dois da Europa apenas alguns anos antes do meu nascimento. Venho de uma família de bacharéis. Meu avô foi bacharel. Meu pai era bacharel. Eu estava destinado ao Direito.

- Tá bom, tá bom... Olha só, tu precisa de ajuda profissional, entendeu?

- Eu pertencia a uma das famílias mais respeitadas daqui. Papai vivia aos braços com todos os políticos. Mamãe era assídua nas soirées das esposas dos figurões. Todos os poetas faziam versinhos à minha irmã mais nova. Todos.

- Tá. Tudo bem, tudo bem... Olha só, tu tomas alguma medicação controlada?

- Eu estava prestes a partir para São Paulo...

- Thorazine, Haldol... alguma coisa assim? Sabes do que eu tô falando?

- Os planos de papai eram que eu terminasse os preparatórios até o fim do ano. Em março começariam as minhas aulas. Eu defenderia a minha tese na Faculdade de Direito. Eu conheceria os melhores rapazes da minha geração. Eu, um dia, chegaria à presidente de província. Eu chegaria à presidência. Talvez além... Senador! Eu seria Senador do Império. Talvez, Conselheiro.

- …

- Eu poderia ter sido coronel.

- …

- Lutado numa grande batalha. Ganho condecorações. Morrido cheio de glórias, como os heróis do Paraguay.

- Humm.

- Mas que triste foi o meu fim.

- Tá. É que eu realmente preciso ir...

- Tísica. Foi a maldita tísica o que me levou.

- É que...

- Foi linda a minha missa de sétimo dia! Era domingo. Quanta gente veio até aqui, meu deus! Todos vieram.

- ...

- No começo, todas as segundas mamãe me trazia flores. Depois foi minha irmã. Até a velhice ela ainda vinha me ver.

- Tu moras aonde? Eu posso chamar um uber e...

- Quantas vezes eu a vi aí. Bem aí. Sempre sozinha. Sempre de luto. Nunca se casou. Sempre dedicada à memória da família. Sempre, sempre. Pobrezinha... Nunca me esqueceu.

- Olha...

- Escute, havia quatro cavalos no meu funeral. Quatro cavalos árabes conduzindo o carro fúnebre no dia do meu enterro! Quatro! Eu tive um enterro de príncipe! Poderia ter tido uma vida de rei. Rei. Que orgulho eu teria dado ao papai...

- Tu precisas de ajuda...

- Olha, toma o meu cartão... Me liga amanhã.

- Então um dia a minha irmã deixou de vir. Ela sempre vinha. Eu soube de imediato o que havia acontecido. Ela já estava muito velha. Desesperei. Não haviam outros parentes. Minha irmã era a última da família. Era a última criatura do universo a lembrar-se de mim. Minha irmãzinha, coitada. Tenho saudades dela.

- Uhum. Certo. Deixa eu te dizer, então: eu sou médico. Sou psiquiatra e...

- Então, nesse dia, comecei a sentir-me como que esvanecendo. As palavras, as ideias, as imagens todas me fugiam do espírito. Os nomes soltavam-se dos seres. A realidade começou a esboroar. Minhas memórias foram sumindo...

- Uhum, uhum. Eu te entendo.

- Mas ainda havia a lápide.

- Lápide? Tá...

- A lápide com o meu nome.

- Olha, eu já te dei o meu cartão, guarda ele bem direitinho...

- Eu entendi tudo. Eu compreendi que a lápide era o que me mantinha aqui. A minha lápide. A inscrição em mármore do meu nome e sobrenome. A marcação dos meus ossos. Eu ainda existia porque algo mantinha a minha memória. Eu entendi tudo.

- Sei, sei. Então, guarda bem esse cartãozinho...

- Mas numa manhã alguns negros encardidos chegaram empunhando pás e picaretas.

- Você pode me ligar assim que for preciso, tá bom?

- Revolveram a terra. Violaram túmulos. Perturbaram os cadáveres...

- O meu nome é Rafael. Dr. Rafael...

- Levaram muitos daqui. Mas principalmente os mortos de maior estirpe. Muitos parentes meus partiram daqui juntos. Nunca mais os vi.

- Você pode falar com a minha secretária, a Cris...

- Mas haviam muitos como eu aqui. Muitos. Enterrados há muito tempo. Porém a maioria não era composta por gente de bom nível, compreende?

- Certo...

- Os operários não levaram os pobres-diabos. Deixaram-nos quase todos aqui. Muitos, muitos deles.

- ...

- Tiveram apenas suas lápides derrubadas. Nunca ninguém jamais veio reclamar os seus ossos.

- Que coisa. Então, eu tava falando da Cris. Ela é um amor...

- Não sei qual foi o erro cometido pelos administradores. Mas, a minha lápide foi esquecida também. E digo isso com toda a serenidade porque sei que o que houve foi um equívoco. Só pode ter sido um equívoco. Foi um erro da administração do cemitério. Um erro terrível. Horroroso.

- ...

- Eles me esqueceram, compreende? Meus ossos ainda estão aqui. Bem aqui. Compreendes, o que digo? Aqui. Meus ossos ainda estão aqui. Compreendes a gravidade disso?

- Claro que compreendo. Tu podes ligar a partir das nove da manhã. Fala com a Cris...

- Meus ossos ainda estão aqui, ouviste!? AQUI! Misturados ao pó da ralé! Aos crânios das prostitutas! Às vértebras dos bêbados! Aos fêmures dos estivadores! Ás tíbias das lavadeiras! Ás falanges dos escravos! Escravos! Aqui!

- Certo, certo... respira, por favor.

- Eu não podia desaparecer e deixar os meus restos junto ao entulho.

- Tu ligas amanhã, nós marcamos um horário e...

- Foi por isso que te dei o privilégio dos meus afagos, entendeste?

- …!?

- É por isso que eu sempre os ofereço aos passantes. Todos. Todos eles. Todos os que cruzam pelo meu túmulo. Homens, mulheres, velhos, velhas, meninos, meninas... até mesmo aos escravos.

- Oi?

- Aprendi o truque observando as rameiras. Sempre as mesmas, trazendo sempre os mesmos tipos para cá. Eles sempre voltavam para elas. Sempre lembravam delas.

- ...?

- Mas elas... Elas faziam... fazem, por tostões.

- Amigo, por favor, me escuta só um pouco.

- Tostões!

- Calma, por favor...

- Eu não faço por tostões...

- Calma...

- Não, não, não...

- Calma...

- Não por tostões. Eu não preciso de tostões. Eu tenho posses. Minha família tem um solar perto da Igreja.

- Moço, é melhor tu me dizer o teu nome também. Talvez eu possa...

- Um solar lindo.

- Escuta, eu preciso saber o teu nome.

- Um jardim enorme.

- Olha pra mim, eu quero o teu nome, por favor.

- Pardais...

- Garoto, olha pra mim. O teu nome. Qual é o teu nome?

- Gaturamos...

- Ei! Me diz o teu nome!

- Sabiás...

- Qual o teu nome!?

- Meu nome...?

- Isso. Teu nome.

- Meu nome...?

- Sim, qual o teu nome?

- Eu...

- …

- …

- Eu não...

- ...

- Eu não me lembro mais.

***


Quando Rafael chegou em casa era quase dez da noite. Não beijou a mulher como de costume. Foi direto para a ducha.

- E aí, môr. Como é que foi o vôlei hoje?

- Foi bom.

- Foi?

- Foi. Foi diferente.

Não jantou. Não foi ver as meninas no quarto e nem perguntou como havia sido o dia na escolinha.

Deitou.

Ao dar o beijo de boa noite na mulher, Rafael notou que Vera havia vestido a sua melhor calcinha.

Imediatamente ele fechou os olhos e buscou imagens.

Cenas diversas. Fragmentos. Imagens desconexas. Algumas completamente fantasiosas. Havia partes de corpos humanos, fotogramas de gestos, lembranças de sons. Um olhar, um par de nádegas, uma barriga, um palavrão sussurrado ao pé do ouvido. Geralmente essas buscas demoravam alguns minutos e eram pouco nítidas, mas hoje não. Hoje havia algo fresco e vivo na sua cabeça.

Rafael pensou no menino do parque.

Lembrou dos seus cabelos longos, ondulados e revoltos de poeta romântico.

- Humm...

Do rosto delicado.

- Humm... Humm...

A boca.

- Humm... Humm... Isso...

Os lábios vermelhos. Protuberantes.

- Delícia.

Uns lábios macios e quentes.

- Isso, vai...

Como uma boceta.

- Fode!

É quase meia-noite.

Abraçado à sua esposa, a arquiteta Vera Lúcia Antunes Barbosa, o Dr. Rafael Barbosa dorme pensando no menino loiro do Parque da Luz.

Amanhã é quinta-feira.

Faltam seis dias para quarta.


Luiz Souza

CAMPECHE, 25 mar. 2021.




terça-feira, 6 de abril de 2021

O BOI-FANTASMA

 

- Paulo Andrés de Matos Villalva (Amaweks). O Boi Fantasma, 2014. Disponível em: 
https://diarioartografico.blogspot.com/2014/04/apropriacao.html?fbclid=IwAR1migQtQXFwSLrOh9HNJMtW6FYMeNjIzv42uA96QYF-Jh5frn-FW0Q3e-Q
 


"Oioioiô, com você eu me abro.

Oioioiô, como tudo é tão triste!

Pra que foram inventar o diabo?

Agora ele pensa que existe."

- Zumbi do Mato. Meu filho diferente, 2005.


Era sábado. Estava calor e ele decidiu tentar dormir um pouco. Deu mais um pega e deitou na areia.

Fechou os olhos. A luz do sol entrou pelas suas pálpebras apesar das lentes dos óculos escuros. Ao longe, o som das ondas, um vendedor ambulante e banhistas. O vento era uma brisa suave.

Viu formas em meio à vermelhidão clara do seu interior. Pontos brilhantes e escuros que passavam por dentro dos seus globos oculares. Algumas dessas figuras lembravam minúsculas moscas voando de um lado para o outro. Outras, parecendo pequenos bastonetes lembravam criaturas microscópicas de gravuras de velhos livros didáticos.

As coisinhas passavam apressadas diante dos seus olhos. Algumas movimentavam-se de forma confusa, mas não pareciam agir aleatoriamente. Elas pareciam conscientes.

Um dos seres parou e permaneceu flutuando em meio à vermelhidão e ao caos.

Uma espécie água-viva.

Fluorescente.

Com cérebro.

E olhos.

Ele a reconheceu.

Guarde esse entendimento: o Mundo e Extramundos.

Ela não falava. Apenas fazia-se compreender.

Vocês habitam o primeiro, nós, os outros.

Foi um amigo artista plástico que lhe apresentou pela primeira vez aquela imagem.

Nesses lugares que existem para além do que os seres humanos definem como espaço, tempo, matéria e energia, se constituem forças autônomas e que se nutrem de tudo aquilo que nasce e emana das suas vidas interiores e corpóreas: medos, desejos, ódios, amores, saudades, memórias... Essas forças somos nós.

- Cara, de onde tu tirou essa pintura?

Somos os produtos das suas experiências no seu plano de realidade.

- Humm... Acho que eu andava com a ideia de criar uma espécie de bestiário da Ilha. Como os dos livros medievais, ou dos jogos de RPG, saca? Só que com elementos daqui.

Uma vez formadas, passamos a agir como qualquer outro ser vivente. Buscamos continuar existindo. Queremos continuar sendo.

- Interessante essa ideia.

Cada lembrança, fantasia, sonho tem sua origem nas suas pequenas e grandes experiências, pessoais e coletivas, e se mantém para além delas. Algumas de nós desaparecem cedo. Quase natimortas. Abortos do pensamento humano.

- Pois é. Acho que pensei na controvérsia sobre origem do boi de mamão, sabe? Tu já deve ter ouvido alguma coisa nesse sentido: tem gente que diz que a origem do personagem é uma, outros dizem que é outra. Rola todo um papo sobre a crença cristã de morte e ressurreição, o lance sincrético dos ídolos de fertilidade...

Outras duram um pouco mais. Às vezes, um dia, dois, alguns anos, uma vida inteira. Todas, no entanto, findam assim que os seus suportes físicos deixam de existir como carne. Nossos irmãos morrem com vocês.

- Sim.

Mas existem outros bem mais longevos. São esses os mais poderosos da nossa espécie.

- Enfim, só sei que, um dia, resolvi criar a minha própria história de origem. Uma história sobre o primeiro “avistamento” de uma criatura dessas.

São as formas de pensamento mantidas ao longo de séculos e milênios com a força de milhares, milhões, bilhões de experiências vitais acumuladas ao longo do tempo. A fé de cada crente. O ódio de cada ofendido. O ressentimento de cada humilhado.

- Hum.

- Nós, como vocês, somos mortais. Nós, como vocês, sabemos da nossa condição. Nós, como vocês, não queremos morrer. Seres de substâncias extracorpóreas, não estão submetidos às leis do Mundo, porém, também não são superiores à natureza dos Extramundos. O Esquecimento é o nosso destino - um espaço ermo, distante, de dificílimo acesso e fronteiriço com o Nada.

- Aí, então, eu peguei esse negócio do folclore e joguei lá pra época do Império.

A nossa mortalidade e corruptibilidade nos tornam tão temporais quanto vocês mesmos.

- Imperio não! Me confundi. Colônia. Eu peguei esse negócio do folclore e joguei lá pra época da colônia. Antes da ocupação açoriana ainda. Quando isso aqui era só uma ilha guarnecida.

Não somos deuses, nem demônios, apesar de muitas vezes vocês assim nos denominarem.

- Massa.

Somos, pelo contrário, criaturas dependentes e submetidas aos caprichos da matéria em movimento e do aparente acaso da história.

- Uma ilha do litoral sul do Brasil do início do século XVIII. Só com alguns soldados esquecidos nos fortes. Um punhado de soldados isolados no breu da Ilha.

Matéria e processo histórico que, se possui alguma ordenação superior, nos escapa tanto quanto a vocês.

- Uhum.

Nós, os pensamentos somos tão reais quanto qualquer elemento classificado em suas atuais tabelas periódicas e não vivemos isolados de vocês.

- Um cenário propício pra criaturas mágicas.

Nascemos no seu plano. Dentro de vocês. Vivemos num espaço psíquico de transição entre o Ser e o Nada. Chamamos esse espaço de Matárius. Outras denominações possíveis e que vocês usariam poderiam ser mente, espírito, pensamento, imaginação, fantasia, inconsciente. Mas não importam os nomes. Nem as definições.

- Avistamentos...

As criaturas de Matárius não somos inertes nem passivas.

- Sim. Acho que o meu processo de criação da pintura passou por essa espécie de mitologia que eu inventei.

Nós atuamos nos nossos mundos...

- Tipo, um universo.

.. e no seu.

- Um mundo que dá a base pra imagem.

Nos insinuamos nos seus sonos, nos seus devaneios, nas suas razões, nas suas loucuras. Nosso objetivo é o de conduzirmos vocês às nossas imagens.

- Saquei.

Às nossas evocações.

- Só que dai, pra compôr o desenho, eu misturei outras coisas. Elementos de RPG, videogames, coisas da cultura atual. Busquei referências contemporâneas que eram possíveis de serem conectadas com elementos da paisagem, natureza local.

Em todo quadro que se pinta, em todo livro que se escreve, em todo monumento que se ergue, em todo túmulo que se constrói, em toda filosofia que se inventa, em toda religião ou partido que se funda, em todo medo que se cultiva, em todo ódio que se nutre...

- Uhum.

Em cada um desses fenômenos há um anjo, demônio, herói mítico, deus, fantasma, abstração, atuando em causa própria. Em favor da sua própria persistência.

- Por exemplo, tu sabes que nesses mundos de fantasia pop, referências às criaturas marítimas são frequentes. Tentáculos de polvo, escamas, essas coisas.

Quanto mais vocês nos evocam, conscientemente ou não, sabendo ou não da natureza e poder dos seus conjuros, mais nos fortalecemos e nos fazemos presentes em seu Mundo.

- Eu resolvi citar um bicho comum aqui nas praias da ilha que são as medusas.

Quase sempre sob formas discretas.

- É por isso que o boi da pintura tem esses tentáculos e essa aparência .

Um signo, um símbolo, um índice...

- Sim...

A imagem, física, mental ou linguística geralmente é o máximo que conseguimos alcançar do seu plano.

- Nessa minha versão da história, então, o primeiro boi de mamão não é uma criação humana.

Contudo, às vezes, conforme o poder concedido a certas entidades, nós adquirimos maior concretude.

- Mas um ser real e estranho.

Dominamos corpos, formulamos discursos, adquirimos expressão física.

- Isso. Uma criatura de origem desconhecida e aparência fantasmagórica tentando passar por um boi comum.

Profetas, líderes e artistas, frequentemente são nossos instrumentos, mas também edifícios, artefatos, crenças, modos de vida... culturas inteiras.

- Tipo um disfarce. Entendi. Tá, mas por que esse boi fantasma estaria se disfarçando?

Nós, os seres de Matárius, somos muitos...

- Não sei te dizer. Nesse ponto eu fiquei nas possibilidades. Poderia ser só curiosidade da criatura com relação aos seres humanos...

e estamos em toda a parte.

- Ou talvez ela estivesse andando por aí tentando assustar as pessoas por algum motivo. Poderia fazer parte de algum plano contra a humanidade, talvez. Não sei. É uma lacuna a ser explorada.

Nós estamos dentro das suas cabeças.

Ele abriu os olhos e sentou-se.

O sol estava indo embora. A praia estava quase vazia. Os banhistas guardavam cangas, toalhas e pranchas de surf. Um cachorro passou correndo e atirou-se ao mar. A sua frente estava a Ilha do Campeche.

Em breve anoiteceria por completo. Apesar das luzes elétricas, ele sempre pensava ver coisas se movendo na escuridão. Coisas imprecisas. Levantou e começou a caminhar em direção ao asfalto. Não queria estar na praia assim que a noite chegasse.


Luiz Souza

CAMPECHE, 1º abr. 2021.

quarta-feira, 31 de março de 2021

OS VAGABUNDOS DA PRAÇA 15


Praça XV de Novembro, Florianópolis, Santa Catarina.

 

Há uma praça.

No centro dela, um monumento feito com balas de canhão.

Os maltrapilhos se amontoam ao redor do monumento.

Fazem força para ler as inscrições no mármore desgastado.

Soletram com dificuldade.

Alguns nomes não lhes são estranhos.

Sabem que conhecem aquelas pessoas, mas não lembram.

Eles próprios estão ali.

Todos estão ali.

O monumento é deles.

Foi construído em memória deles.

Para louvá-los, saudá-los para todo o sempre.

Mas é tão difícil lembrar.

São tantos títulos, tantos nomes, tantos sobrenomes, tantas citações em latim.

Mais uma vez eles desistem.

Voltam a se dispersar pela praça.

Talvez mais tarde alguém lembre.

Ou talvez amanhã, ou depois, ou... no próximo ano?

Quanto tempo faz? Será que já passou um ano?

Com certeza.

Um ano com certeza.

Muita coisa mudou na cidade.

Muita coisa mudou.

Ou não mudou nada?

Quase nada?

Todos gostariam de ser oficiais.

Lembram-se de que isso lhes parecia desejável à época.

Ainda deve continuar sendo.

“Prometi voltar para casa morto ou capitão ou coronel”, disse alguém antes de partir.

Talvez tenha sido para sua mãe.

Ou foi para a esposa?

Tanto faz.

Outro lembra de quase tudo, menos do próprio nome.

Lembra dos abraços e beijos na hora do embarque.

Lembra do lenço de seda que levou no bolso.

Lembra das noites ao relento.

Da lama.

Lembra do som alto dos bacamartes.

Dos gritos.

Lembra do índio cortado ao meio.

Lembra do que sobrou do colega de alojamento.

Lembra da vez em que se divertiu com uma prostituta.

Lembra do pão mofado.

Lembra do...

...foi na cidade ou no campo?

Havia mais gente, mas ele não sabe bem como aconteceu.

Era uma pilha de cadáveres.

Ele estava bem embaixo deles.

Era impossível respirar com tanta gente em cima.

Havia ratos.

Os ratos comiam o que sobrou dos seus companheiros de batalhão.

Há quanto tempo?

Eles desistem e voltam para os seus bancos.

Mais de um ano, com certeza.

Uns continuam ali, parados, balbuciando nomes.

Citações em latim.

Mais de um ano.

Os negros que foram sonhavam com alforrias.

Foram de navio.

Há quanto tempo?

Os transeuntes passam sem vê-los.

Não lembram mais quando.

Nem porquê.


Luiz Souza

CAMPECHE, 31 mar. 2021.


sexta-feira, 26 de março de 2021

TOSCA MAROSCA


- Franklin Cascaes. Bruxa de otos tempos. 3 jan. 1961.

 


À memória de Franklin Cascaes.



O Underground Rock Bar, ou Bar do Frank, era um estabelecimento pequeno e sujo, mas honesto. Muito honesto.

O Under ficava bem em frente à Lagoa da Conceição. Próximo às dunas.

Existem muitas histórias sobre a Lagoa da Conceição.

Histórias antigas.

- Daê.

- Olá.

- Massa essa banda aí, né?

- Tu gosta?

- Gosto.

- Então talvez seja.

- Massa.

- …

- Tá sozinha?

- Não.

- Tá com uma galera?

- Pode-se dizer que sim.

- Pode crê.

- …

- E cadê a raça?

- Os meus amigos?

- Isso.

- Por aí.

- Entendi.

- …

- Eu nunca te vi por aqui. És de onde?

- Sou daqui.

- Sério? Não parece.

- Não, né? Mas sou.

- Da hora.

- …

- Queres uma cerveja? Vou lá pegar pra nós.

- Não.

- Num bebes?

- Por que eu beberia?

- Saquei. De boa, de boa. Tranquilo.

- …

- Fazes o quê?

- Eu? O que tu acha?

- Sei lá... acho que tu tem cara de ser de Humanas. Estudas na UFSC, UDESC, CEFET...?

- Já andei por esses lugares.

- Massa. Eu sou do CTC. Faço Sistemas de Informação na UFSC.

- Fascinante.

- Galera de humanas é um pessoal com um jeito bem próprio, né?

- Não muito diferente dos outros, na verdade.

- É...

- Escuta, vamo chegar ali fora? Tava querendo fumar.

- Tu queres mesmo que eu te acompanhe?

- Claro! Bora lá.

- Não. Tu não entendesse a minha pergunta...

- Hum.

- Tu realmente quer que eu te acompanhe?

- Quero, pô! Tô te convidando.

- Não... tu ainda não entendeu.

- Hum...?

- Tu DESEJAS isso?

- Desejo, pô! É claro que eu desejo. Tô te falando...

- Certo.

Era sexta-feira. Noite de lua cheia.

Na programação, uma banda de hardcore oitentista, outra de crust power violence, outra de noise jazz e, por fim, uma de ego-core. A maioria dos frequentadores não ligava a mínima para o que estivesse tocando. A música era só um pretexto.

- Frio, né?

- Não sinto.

- É, dá pra sacar. Tu ficas altas gata com esse vestido aí, sabias?

- Hum.

- Tens namorado?

- Olha, vamos deixar algumas coisas bem claras aqui...

- Hum.

- Tas vendo aquela guria ali?

- Putz! Tu é lésbica!?

- Escuta, guri! Tás vendo aquela menina ali?

- Aquela gordinha de preto?

- Isso. Aquela sozinha bebendo vinho na calçada. Ali, na beira da Lagoa.

- Tá. O quê que tem ela?

- Eu tô aqui por causa dela.

- Não entendi... ela tá contigo? É tua amiga? Namorada? Tua irmã? Não saquei.

- Eu existo, aqui, por causa dela.

- Como é que é?

- Eu existo aqui por causa dela.

- Hahahaha.

- …

- Tu fumou?

- …

- Tá de cara?

- …

- Escuta. Te achei bem linda, na real.

- Eu sei.

- Então, sei lá...

- Não encosta em mim.

- O que foi, pô!?

- Não encosta em mim.

- Não tás afim?

- Eu sou uma bruxa.

- ...?

- Ouvisse?

- ...?

- Eu sou uma bruxa.

- Sério? Não parece...

- Eu vou te dizer só mais uma vez: eu sou uma bruxa. E eu te trouxe aqui pra te convencer disso.

- Nossa! mas eu já tô superconvencido, na real.

- Já te disse pra não encostar em mim, porra! E se eu precisar repetir, tu vai se arrepender.

- …

- Muito.

- Beleza, beleza. Saquei.

- Escuta: bruxas existem. E eu sou uma delas.

- Tá. E porque tu tás me dizendo isso?

- Porque preciso que pessoas acreditem em nós.

- “Nós” quem, guria? Tás maluca? Deixa eu voltar lá pra dentro, deixa. Falou!

- Não, gurizão. Não entendesse. Tu vai ficar aqui comigo. A gente vai terminar esse papo agora.

- Sai fora, sai!

- Tu não disse que desejava isso?

- Sua doida.

- Tu vais ficar.

- Ah, vou! E se eu não quiser? E se eu te deixar aqui falando sozinha? Sua errada. Sua demente.

- Aí, então, o teu pai morre de câncer no intestino.

- O que tu disse?

- Eu disse que se tu voltar lá pra dentro daquela porra de bar, então o Seu Gilson, teu pai, vai acordar amanhã no Hospital Regional tão cheio de dor que a única coisa que ele vai conseguir fazer vai ser urrar e pedir pra morrer até se cagar todo. Toda a cama. Todo o lençol. Todo o cobertor. Todo o colchão. Tudo. Tu já visse alguém literalmente se cagando de dor, André? É mais do que feio ou nojento. É indigno.

- SUA VACA!!! SUA PUTA DO CARALHO!!! VAI TOMÁ NO CU, SUA CADELA!!!

- É melhor baixar a voz.

- VAI SE FUDER! Como é que tu sabe do meu pai? Quem foi que te disse isso, sua doida do caralho!?

- Eu sei, André.

- E como é que tu sabe o meu nome, sua vaca!?

- Eu sei.

- Sua doente!

- Conquistei a tua atenção, não foi?

- Sua doente!

- Agora senta aqui comigo. Vamo conversar a sério.

- …

- Senta André! Te garanto que aqui, na calçada, comigo, tu vai se divertir bem mais do que lá dentro com aqueles noias dos teus amigos.

- Sua psicopata do caralho. Quem és tu, quem?

- Senta aí e eu te conto.

Eram quase 3h da manhã. O Under continuava aberto. A última banda começava a ensaiar os primeiros acordes. Grupos de jovens amontoavam-se em frente ao bar, invadiam a rua, tomavam conta da calçada à beira da lagoa. No meio-fio, garrafas vazias, ou quase vazias, de vinho barato, refrigerante, vodca e cerveja.

As madrugadas de julho costumam ser muito frias em Florianópolis.

- Aí, gurizão! É isso aí. Tá confortável?

- Melhor tu falar logo...

- Eu gosto assim. Quando os caras ficam nesse nível de interesse.

- Vai tomar no cu.

- Mal-educado. Olha, tá bom, vamo começar vamo. Tu lembra da menina ali? A moça de preto?

- O que é que tem ela? Foi ela que te contou do pai? Quem é aquela gorda?

- Não. Ela nem sabe que estamos aqui. Muito menos imagina quem é o teu pai.

- Então o que ela tem a ver?

- Eu te disse que eu tô aqui por causa dela.

- Cara, que viagem...

- Eu te disse que eu tô aqui por causa dela, lembra? E eu te disse que sou uma bruxa. Uma bruxa de verdade.

- Que viagem... Puta que pariu!

- Olha, André, deixa eu te contar uma história que aconteceu comigo há muito tempo atrás. Aqui perto, inclusive.

- …

- Antes de existir esse bar. Antes de existir esses bares. Antes de existir o próprio calçamento dessa rua, tinha um riacho aqui pertinho. Um riacho e uma casinha de pau-a-pique.

- Hum.

- Nessa casa morava uma família. O pai era tanoeiro. Tu sabes o que é um tanoeiro, não sabe? Não, não sabe. Um tanoeiro, André, é um homem que fabrica toneis, barris. Esse era um tipo de produto muito utilizado por aqui naquela época e esse cara tinha uma boa clientela. A mulher dele, por sua vez, era lavadeira e todos os dias vinha até o tal do riacho pra trabalhar. Ela lavava a roupa das famílias boas aqui das imediações. Sabe, André, essa mulher conhecia os segredos de todo mundo. E isso só por ler as manchas das roupas que mandavam pra ela. Nódoas fresquinhas de sangue, porra, merda, todo tipo de marca que um lençol, uma camisola, uma ceroula, um corpete podem deixar...

- Tu é doida, guria.

- Afe! Que repetitivo tu és! Fica quietinho, fica e me deixa continuar...

- …

- Tinha uma garota na família. Uma menina de 14 anos. Filha única. A mãe e o pai queriam ver a coitada casada. Rápido. Se possível com algum pescador ou roceiro conhecido. Qualquer um, na verdade. Mas com decência e o mais rápido possível. É que pra eles tinha que ser assim, entende? Mulher tinha que casar. E além disso tinha a coisa da austeridade. Quando a menina saísse fora, aí então era uma boca a menos pra dar de comida. Um alívio pra todo mundo.

- Tá. E daí?

- E dai que um dia essa guria veio até o riacho sozinha. A mãe dela tava doente. Tava com disenteria. Não conseguia sair da latrina naquela manhã. A menina, então, veio sozinha até o riacho fazer todo o serviço da mãe.

- …

- Ela trabalhou pra caralho naquela manhã. Lavou uma porrada de pano sujo e fedido. Um monte mesmo. Tanto que, ao meio-dia, ela se sentou em baixo de uma árvore para comer e descansar. Ela comeu pão com peixe frito, chupou uma laranja e bebeu um pouco de água do riacho. Quando se deu por satisfeita, ela deitou. Meia hora depois pegou no sono.

- Não tô entendendo, porra nenhuma.

- Então, ela dormiu sossegada durante algumas horas. Tava uma tarde bonita. Aí, a certa altura, ela acordou com alguma coisa em cima dela. Era um negócio grande, imundo e fedorento. Como uma trouxa de roupa suja. E essa coisa, André, esmagava a menina, sufocava a menina e se metia por entre as pernas da menina. A coitada tentava gritar, mas não conseguia. Ela se debatia, mas a coisa era muito forte. Forte, peluda e com bafo podre. Enfim, pra encurtar a conversa: o marinheiro gordo fodeu forte a menina. Fodeu e gozou dentro dela. Desnecessário dizer que a guria era virgem e que aquela foi a experiência mais aterrorizante, humilhante e dolorosa da vida dela, né?

- É sério essa história?

- É claro que sim! Mas cala essa boquinha que ainda tem mais.

- Hum.

- O marinheiro deixou a moça jogada no mato e foi embora. Nunca mais apareceu na freguesia. A menina chorou muito, se lavou e voltou pra casa só depois de escurecer. Quando ela chegou, encontrou a mãe com um terço na mão, rezando pra Deus trazer a garota sã e salva. Quando a mulher viu o estado da filha entendeu imediatamente o que é que tinha acontecido. O pai, que a essa altura já andava pelos matos procurando a filha, quando viu a garota também entendeu. Não adiantou muito a mãe gritar e pedir pro marido que tivesse calma. Ele bateu tanto na moça que só parou quando começou a tirar sangue das costas, braços e pernas da menina. Foi punk aquele dia.

- Puta que pariu.

- É. Era uma época difícil aquela, né? Bom, mas o importante é que chegado a esse ponto as coisas só pioraram. Naquele mês a moça não menstruou e, tempos depois, já tinha uma criança na família. Um lindo bebezinho. Grande. Gorducho. Sadio. Ele não foi batizado. A moça continuou morando com os país, mas agora não podia dirigir mais a palavra ao velho. Com a mãe a coisa era um pouco menos escrota. A mulher pelo menos falava com a filha. Tá bom que, por dentro a velha desprezava a guria e, no máximo, tolerava a presença do neto, mas ao menos ela se esforçava. Isso era a situação em casa. Na rua era bem pior. Pela freguesia, pelas costas da moça, o pessoal chamava ela de “rapariga”, “perdida”, “puta”... Galera dizia até que ela dava pra leproso e pra escravo. Não tinha coisa pior naquela época que ser leproso ou escravo, André.

- …

- Mas, assim, apesar de tudo a menina tentava gostar da criança. Ela queria amar o filho. Queria mesmo.

- Hum... E aí?

- Aí é que ela não conseguia. O moleque tinha sido resultado de um estupro, porra! Dá pra entender, né?

- Hum.

- Mas o foda mesmo é que toda noite ela tinha uns sonhos parecidos. Ela tava nua numa igreja, no meio de uma missa, e, nessa missa, todos olhavam pra ela e riam, gritavam e chingavam. No sonho, ela tava com o filho no colo. De repente ela olhava pro menino e não via mais um bebê, mas uma trouxa de roupa suja. Ela ficava aliviada ao ver que a criança tinha sumido. De repente, tudo mudava ao redor. Agora ela tava no riacho, numa tarde bonita, sentada, tranquila olhando a correnteza. Nessa hora ela sentia uma mão tocando levemente o ombro dela. Era uma mão amiga. Um gesto de conforto. Aí, então, ela olhava pra trás e via um homem bonito. De barba longa e cabelo longo. Tipo Jesus. Só que definitivamente não era Jesus. Ele, então, dizia calmamente pra ela: “tu podes”. Nessa hora a moça sempre acordava assustada, suada e ofegante. E era assim quase toda a noite.

- ...

- Isso durou até o fim.

- Até o fim do quê?

- Até o fim dessa bosta toda. Até o dia em que a menina levou o seu bebezinho até o rio e afogou a criança.

- Como é que é?

- Ela nunca admitiu o que tinha feito. Ao invés disso, criou uma história que passou a repetir pra si mesma todos os minutos, todas as horas, todos os dias, todos os anos, até morrer. O que durou um bom tempo, felizmente. Digo, felizmente pra mim, claro. Pra ela foi péssimo.

- E que história foi essa? Que história ela inventou?

- Então, essa é a parte boa: ela inventou uma história aonde uma mulher, muito velha e feia, vinha voando pelo céu, entrava por um buraco na parede da casa, invadia o quarto aonde a moça dormia com o neném, roubava a criança e jogava o guri no rio.

- Que pira.

- Eu acho inventivo.

- E quem era essa velha?

- Bobo! Sou eu.

- Como é que é?

- Sim! Incrível né? Desde então eu existo! E é graças a gente como essa pobre coitada que eu sigo existindo ao longo do tempo. Naquele caso, eu fui a bruxa que roubava e matava bebês. Mas também, conforme a situação, eu posso ser a bruxa que destrói as colheitas. Ou a bruxa que adoece o gado. Também sou a bruxa que deixa os homens brochas. Ou que faz o útero das mulheres secar. Enfim, sou eu. Era eu. Sempre eu. E quando não sou eu em particular, sempre é alguma das minhas irmãs.

- …

- É que iguais a mim existem outras, sabe? Muitas outras. Ou pelo menos existiam.

- Tu é completamente doida, guria. Totalmente fora da casinha.

- Certo. Ceticismo é uma coisa que eu já tô acostumada a lidar ultimamente. De todo modo, sabe a garota de preto?

- Hum?

- Ela quer ser uma de nós, coitada. Quer ser uma bruxa. Na real, ela é só uma adolescente assustada, tentando descobrir o seu lugar no mundo e se defender do jeito que pode. Só que, aí é que tá: o fato de ela acreditar na possibilidade de um dia poder vir a ser uma bruxa de verdade lhe dá conforto. Dá a ela a sensação de poder. Espanta os demoninhos dela. Então ela crê. Crê com todas as forças na existência real, concreta, de seres como eu. Do mesmo modo que a minha amiga lavadeirinha acreditava em mim, pra poder manter alguma sanidade, essa garotinha aí também tá completamente convencida disso. A única diferença é que, antigamente, gente assim fazia esconjuro, reza...

- Reza?

- Sim. Tinha uma que eu achava massa, até... Mas como era mesmo...?

- Que reza?

- Ah, lembrei! Era assim, ó:


Pela cruz de São Saimão

Que te benzo com a vela benta

na sexta-feira da paixão


Treze raios tem o sol,

treze raios tem a lua

Salta demônio para o inferno,

pois esta alma não é tua.


Tosca Marosca, rabo de rosca

Aguilhão nos teus pés

e relho na tua bunda.


Por baixo do telhado,

São Pedro, São Paulo e São Fontista

Por cima do telhado, São João Batista


Bruxa tatarabruxa,

tu não me entres nesta casa,

nem nesta comarca toda.

Por todos os santos, dos santos,

Amém!


- Que porra é essa, guria?

- Massa, né? Mas hoje, fora alguns velhos, isso acabou. Atualmente o mais comum é que o pessoal vá até uma lojinha de camelô compre umas bugiganga, coloque num canto da sala e chame isso de “altar pagão”. Sabe como é, pentáculos, pires com sal, cristais, pedrinha colorida, pena de bicho morto, incenso, vela... essas porras. Acho tudo isso bem brega, na real, mas foda-se. O fato é que eu existo por causa de gente que faz esse tipo de coisa. Gente como aquela moça ali. Frágil e assustada. E no dia que pessoas como ela deixarem de existir ou acreditar em mim, no dia que elas deixarem de acender os seus incensozinhos fedidos, então eu enfraqueço e desapareço. Sumo no éter, como se dizia. Cara, tu não imaginas o quanto é frio e solitário no Esquecimento. Ou pelo menos não por enquanto, já que um dia tu também vai acabar lá. O Nada, André, é tranquilo perto do Esquecimento. Muito mais tranquilo. Seria ótimo poder voltar pro Nada, na real.

- Guria, ou tu é muito doida ou tá completamente sequelada. Totalmente.

- Bastante informação, né? É que às vezes eu falo demais. Sou muito ansiosa, acho.

- Doida. Doente. Maluca do caralho.

- Tá bom, André. Tá bom. Tô vendo que contigo o negócio tem que ser mais hard.

- Tô vazando.

- Tá bem. Vai lá.

- Fui.

- André! Só mais uma coisa...

- Hum?

- Amanhã, quando tu fores visitar o teu pai na UTI...

- O que? O quê que tem o meu pai?

- Lembra de mim, tá bom?

- …?

- Só lembra.


O show havia acabado. O bar já estava fechando. Os grupos se dispersavam pela avenida.

A moça de preto continuava sozinha, sentada na calçada, bebendo o que restava de uma garrafa de vinho tinto seco. Ela não queria voltar para casa. No céu, a lua cheia, branca, profundamente branca, sob um céu de abismo se refletia na lagoa. A jovem olhava para a Lua e para as águas. O silêncio e o ruido leve das ondas a acalmavam.

Não era a toa que existiam tantas histórias sobre aquele lugar. Havia alguma coisa de fantástico ali.


Luiz Souza


CAMPECHE, 16 mar. 21.

SOBRE LER CRUZ E SOUSA (e Escrever História Materialista) DIALÉTICAMENTE

  "A Prisão de Haeckel" (Luiz Souza. Arte Digital, 2025) (...) Eu trazia, como cadáveres que me andassem funambulescamente amarrad...