O GLITCH COMO MÉTODO EM ARTE E HISTORIOGRAFIA
por Luiz Alberto de Souza
A "História oficial" - toda a bibliografia que aprendemos nas escolas, academias e outras instituições com pretensões à estabilização do saber coletivo - é necessariamente uma máquina de esquecimentos. Ela opera por meio de exclusões sistemáticas — do cânone literário aos museus —, apagando vozes dissonantes em nome de uma versão do passado supostamente coerente e fiel à verdade.
Nós, historiadores e outros profissionais do passado, sempre tentamos mantê-la “funcionando” de modo mais ou menos “regular”.
Memória fragmentada, esquecimento espontâneo ou forçado, apagamento violento, distorções convenientes… Tudo isso sempre fez parte da oficina – às veze suja - do historiador profissional. Seja no momento em que ele está cumprindo o seu trabalho como agente, seja quando ele está apenas observando a lida dos colegas. Seu trabalho como especialista no passado humano é, em grande medida, conseguir equilibrar todos esses elementos de modo que o produto final – o texto historiográfico - não resvale excessivamente nem para o lado da ficção, nem para o anacronismo non sense.
Mas e se, em vez de tentarmos "consertar" essa máquina, buscássemos provocar nela curtos-circuitos?
E se adotássemos o “glitch” — o erro que revela a falha do sistema — como método para desmontar as Histórias oficiais e reinventá-la conforme as perspectivas opostas?
O simbolismo brasileiro, meu objeto de estudo por décadas, é um exemplo. O escritor negro Cruz e Sousa, um dos principais poetas do movimento simbolista (manifestação estética oitocentista que incluiu nomes como Mallarmé, Rimbaud e Verlaine), está sendo reduzido a uma nota de rodapé na historiografia literária oficial do seu próprio país de origem, que privilegia autores brancos e projetos estéticos hegemônicos ( ABL, Departamentos de Letras, imprensa literária...). A História da Arte, por sua vez, segue lógica similar: o que é marginal vira "erro", e o erro é apagado. Aqui, outro catarinense nos serve de exemplo: Victor Meireles. Primeiramente aclamado como gênio da Corte durante o tempo de D. Pedro II, foi reduzido ao esquecimento institucional e descrédito artístico com o advento da República. Não havia lugar para um “monarquista romântico” na moderna Academia Nacional de Belas Artes do jovem regime dos tenentes positivistas.
Cruz e Sousa e Meireles foram glitches históricos — anomalias que expuseram as falhas do projeto liberal-racial brasileiro escravocrata e seu irmão sucessor, o capitalismo moderno. Sua obras e trajetórias interromperam o fluxo "normal" da cultura letrada e artística brasileiras, tornando visíveis seus mecanismos de exclusão e contradições internas.
Hoje, em arte digital, o glitch ocorre quando um arquivo é corrompido, revelando o código oculto por trás da imagem perfeita. Como artista, tenho experimentado frequentemente esse recurso estético numa forma audiovisual a qual, por falta de outro termo conhecido por mim, chamo “reelspoiesis”. Isto é, criação literária por meio da linguem “reels” própria das novas redes sociais, tipo Instagran ou TikTok.
Transposto para a pesquisa histórica, o conceito de “glith” nos permitiria, por sua vez:
1) Expor falhas: Mostrar como o cânone literário ou artístico foi construído sobre exclusões (a marginalização dos simbolistas dentro do cânone literário brasileiro, p. ex.);
2) Aproveitar as brechas: Usar fontes "menores" (as cartas, panfletos, obras ignoradas ou esquecidas dos autores ditos “menores” do século XIX...) para reconstruir visões históricas recalcadas ou suprimidas pelas versões oficiais do passado.
Outro exemplo pessoal no campo da produção artística: Meu trabalho com o grupo de arte contemporânea “Gang do Lixo”, principalmente a minha parceria com o multiartista catarinense Paulo Villalva (Amaweks), buscou transformar “detritos culturais” (fragmentos semióticos das culturas popular, de massa e erudita) em arte crítica e reflexiva, assim como uma historiografia glitch ou uma ficção histórica glitch poderiam transformar testemunhos apagados ou esquecidos em novas epistemologias.
No mais, ainda no campo da experimentação estética e militância cultural, a “Revista Anacronia”, lançada pela Gang do Lixo em 2022, defendeu a mistura deliberada de temporalidades. No contexto da revista esses não eram "erros" históricos, mas uma estratégia para:
I - Descolonizar o tempo linear, mostrando que passado e presente coexistem (A permanência do racismo do século XIX no hoje, como demonstrado literariamente no conto “Firmina”, do historiador André Luiz, em Anacronia n. 1, por exemplo).
II - Criar novas genealogias, onde vanguardistas dos anos 1920 dialogam com a contracultura dos anos 70 ou a cultura dos games atuais (ver o artigo ficcional “Kandinsky, o rebelde abstrato”, assinado por Judas Capiango e o jogo game experimental "Triângulo-Círculo-Quadrado", de Amaweks).
Propõe-se aqui, portanto, uma práxis poética e historiográfica que:
1. Adote o glitch como gesto crítico (como Hélio Oiticica fez com o parangolé, expondo as fraturas da arte elitista).
2. Use a arte para reescrever consciente e criticamente a História como fato social, tal como fez o cinema de Glauber Rocha quando reinventou poeticamente o sertão como espaço político (na tradição de Euclides da Cunha).
3. Inverta a lógica do arquivo, tratando documentos esquecidos como matéria-prima para insurgência (Exemplo prático: fragmentos de filmes de propaganda ufanista da época do regime militar e recortes de telejornais atuais como artefatos glitch para composição de uma bricolage audiovisual que funcione como reflexão sobre a persistência da violência política no Brasil).
Em suma, desmontar a História oficial não é negá-la, mas hackeá-la — corromper seus arquivos para revelar o que eles escondem. A arte contemporânea, nesse projeto, é tanto ferramenta quanto fim: ela expõe as falhas do sistema e, ao mesmo tempo, oferece novos códigos para ler o mundo. Se o século XX nos legou a desconstrução, o XXI exige reconstruções anacrônicas, onde o erro vira estilo, a falha vira potência, e o “lixo cultural” vira arte humana, crítica e liberadora.
A historiografia do futuro, se houver, será instável, explosiva e escrita em modo glitch — ou degenerá em mito.
Florianópolis, 3 de abril de 2025.